03/08/2026

Tiragem de Hoje | O passando não faz mais parte


Deixar o passado para trás é uma frase bonita, mas na prática, nem sempre é simples assim.

A gente costuma falar sobre encerramento de ciclos, como se fosse uma decisão que acontece de uma hora para outra, como se bastasse acordar, entender que algo acabou e seguir em frente com leveza. Só que muitas vezes, o ciclo termina antes dentro da gente, mesmo depois de entender isso, ainda leva tempo para conseguir soltar de verdade.

Ao olhar para essas cartas, o primeiro movimento que aparece é o Dez de Copas.

Essa carta fala sobre felicidade compartilhada, sobre pertencimento, sobre a construção de um lar e sobre aquela sensação de ter encontrado um lugar seguro no mundo. Ela também fala sobre as expectativas que criamos em torno dessas coisas.Eu acho curioso como crescemos aprendendo que a felicidade precisa estar ligada a alguém, uma família, a um relacionamento, a um grupo, a uma estrutura que faça a gente se sentir parte de alguma coisa. Quase nunca nos ensinam que também existe felicidade na própria companhia, na autonomia e na vida que construímos sem depender da presença ou da validação de outras pessoas.

No presente, aparece o Nove de Ouros.

E aqui existe uma mudança muito importante.

O Nove de Ouros fala sobre independência, sobre reconhecer o próprio valor e sobre colher os resultados de tudo aquilo que foi construído com esforço, não é uma carta sobre ter tudo, é uma carta sobre perceber que  já possuo recursos internos suficientes para cuidar de mim.

Às vezes, a gente passa tanto tempo tentando construir um lugar seguro com outras pessoas que esquece de construir esse lugar dentro da gente!E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo aqui!!!Venho de uma busca por plenitude compartilhada, mas estou aprendendo que a  estabilidade não precisa depender exclusivamente do outro. Isso não significa deixar de amar, de compartilhar ou de desejar construir algo com alguém? Não, significa apenas não me abandonar nesse processo.

Quando escolhemos desenvolver independência emocional, algumas relações começam a mudar. Algumas expectativas deixam de fazer sentido, certas dinâmicas que antes pareciam normais, começam a incomodar.Não porque tudo tenha se tornado ruim de repente, mas porque, não sou mais a mesma pessoa.

E então aparece a Morte.

Essa é uma carta que assusta muita gente, mas não fala necessariamente sobre uma morte literal! Ela fala sobre encerramentos, transformações e sobre aquilo que precisa deixar de existir para que algo novo consiga nascer.Existe uma parte da minha vida que provavelmente já terminou, mesmo que eu ainda esteja tentando entender como seguir sem ela.Talvez seja uma relação, uma expectativa, uma versão antiga minha ou uma ideia de felicidade que já não corresponde à  realidade.

O problema é que a gente costuma se apegar não apenas ao que aconteceu, mas também ao que imaginava que poderia acontecer.Às vezes, não estamos sofrendo somente por aquilo que perdemos, estamos sofrendo pelo futuro que construímos na cabeça e que nunca chegou a existir.

E abrir mão disso também é um tipo de luto.

O Dez de Copas mostra uma felicidade idealizada e compartilhada. O Nove de Ouros mostra a construção da própria autonomia. A Morte mostra que, depois de reconhecer minha própria força, eu já não consigo continuar alimentando estruturas, que dependem da minha falta de independência.Essa transformação pode ser desconfortável, mas ela não surge para destruir aquilo que construí,mas surgiu poorque eu cresci!

Tem coisa que só continua existindo, enquanto a gente aceita diminuir a si mesma para caber nela! Quando a gente começa a reconhecer o próprio valor, algumas estruturas desmoronam naturalmente, deixar o passado para trás seja justamente isso: Não fingir que ele não aconteceu, não apagar as memórias, não negar a importância que certas pessoas ou experiências tiveram.Mas entender que algo pode ter sido importante e ainda assim, não servir mais!

É um processo de retorno para o meu próprio eixo!

Estou  deixando de procurar exclusivamente fora, aquilo que precisa começar dentro! Estou aprendendo que independência não significa solidão, que encerramento não significa fracasso e que escolher a mim mesma não é egoísmo.

Algumas coisas terminam porque cumpriram o papel que tinham na nossa vida.

E insistir depois disso não transforma o passado em futuro, só prolonga uma história que já não consegue acompanhar quem estou me tornando...A Morte não aparece aqui para dizer que tudo será fácil, ou que não sentirei falta, ela aparece para lembrar que existe vida depois do encerramento!Mas, para alcançar essa nova vida, alguma coisa precisa ser deixada para trás.

Nem toda transformação oferece respostas antes de começar.

Às vezes, primeiro a gente fecha a porta. Depois descobre o tamanho do mundo que existia do outro lado.